
De trovador solitário a astro pop, o criador da Legião Urbana terá cinebiografia em 2007
Uma luz se transforma em Elvis Presley. De repente, o rei do rock vira Jerry Adriani. Ele olha para Renato Russo e diz: ''Filho, vai em frente''. A história de como o fundador do Legião Urbana, morto há exatos dez anos, teria decidido se tornar cantor, está no livro ''Renato Russo – O trovador solitário'', do jornalista Arthur Dapieve.
Até a sua morte em decorrência da Aids, aos 36 anos, no dia 11 de outubro de 1996, Renato Russo foi capaz de levar multidões aos shows do Legião Urbana, formado pelo guitarrista Dado Villa-Lobos e pelo baterista Marcelo Bonfá. O músico deixou um filho, Giuliano, fruto do relacionamento que teve com uma modelo que era sua fã. Ela morreu em um acidente de carro quando o menino tinha 1 ano.
Considerado gênio por uns, extraterrestre por outros, Renato viveu uma vida atípica, pontuada pela homossexualidade e passagens por drogas pesadas, entre elas a heroína. Tinha gosto pela autodestruição e entornava copos de licor Cointreau debaixo do sol do Nordeste.
O cantor nasceu Renato Manfredini Júnior, no dia 27 de março de 1960. Morou em Nova York entre os 7 e 10 anos com os pais. Voltou para o Rio de Janeiro e aos 13 anos foi morar em Brasília. Aos 15, já dava aulas de inglês. Nessa época teve uma doença nos ossos que o fez passar dois anos em uma cadeira de rodas.
Em 1978, recuperado da doença, formou sua primeira banda, a Aborto Elétrico, inspirada nos grupos punk ingleses. Em 1982, Renato formou o Legião Urbana, que contava inicialmente com Eduardo Paraná (guitarra) e Paulo Paulista (teclado). No ano seguinte, Dado Villa-Lobos assumiu a guitarra, Eduardo e Paulo saíram e a Legião ficou com a formação que a consagrou.
De trovador solitário a pop star
Um dos grupos de rock mais importantes para o movimento BRock (rock brasileiro), a Legião Urbana surgiu numa época fértil do cenário roqueiro da capital federal. Nos anos 80, o trio passou a ficar conhecido fora de Brasília, emplacando algumas de suas composições mais famosas, como ''Que país é esse?'', ''Geração Coca-Cola'' e ''Ainda é cedo''.
O primeiro compacto da banda foi lançado em 1985, com ''Será'', e obteve ampla aceitação do público jovem em todo o Brasil. ''Quase sem querer'', ''Eduardo e Mônica'', ''Faroeste caboclo'', ''Pais e filhos'', ''Meninos e meninas'' e ''Angra dos reis'' fizeram sucesso imediato. Ao todo, foram oito discos lançados e mais de 5 milhões de cópias vendidas.
A morte de Renato Russo - que gravou também dois discos como cantor, um com músicas italianas e outro lançado postumamente - reacendeu uma espécie de mitologia em torno de sua figura, tornando-o um ídolo entre adolescentes que nem chegaram a acompanhar a fase mais popular do Legião Urbana.
Tanto que há interesse em transformar a vida do músico em filme. O cineasta Antonio Carlos da Fontoura, diretor de ''Copacabana me engana'' (1968), ''A rainha diaba'' (1974) e ''Gatão de meia-idade'' (2006), entre outros, tem planos de começar a filmar, a partir de 2007, a biografia ''Religião urbana'', com foco no jovem professor de inglês Renato Manfredini, dos seus 17 aos 23 anos, que descobre o punk e monta a banda Aborto Elétrico.
Outra idéia é levar às telas a versão cinematográfica de ''Faroeste caboclo'', que será dirigido por René Sampaio e produzido pela Copacabana Filmes, de Carla Camurati. A roteirista Denise Bandeira também toca um projeto parecido: transformar ''Eduardo e Mônica'' em uma narrativa cinematográfica.
“RENATO TINHA UM SENSO DE HUMOR MUITO APURADO”, DIZ DADO
Marcelo Bonfá, ex-baterista do trio, diz ter “uma relação espiritual” com o músico
Nos últimos tempos ele não cansava de repetir: mãe, eu não sou daqui. Extremamente romântico e desiludido com suas relações, Renato tinha um lado bem-humorado que o amigo e companheiro de banda Dado Villa-Lobos gosta de lembrar.
Ele tinha um senso de humor apurado, uma coisa de enxergar a leveza da vida. Tinha um lado cômico que era bem forte. Ele conseguia ir de um extremo a outro com facilidade. Coisa de um ser humano sensível, diz o ex-guitarrista do Legião Urbana.
A presença dele era muito marcante, muito forte, intensa. Renato estava sempre buscando saídas, questionando o que estávamos fazendo, instigando o lado artístico das pessoas. Ele sempre nos dava forças para chegarmos aonde queríamos, diz Dado, contando que não tem vontade de mexer no material inédito da Legião Urbana, que ainda é vasto.
No nosso último álbum, 'A tempestade', ele chegou pra mim e disse: 'Cadê você nesse disco? Cadê as guitarras?' E de repente ele tinha razão, porque eu estava absorvido com outras questões. O Renato nos puxava para a realização. Era muito bom ter uma pessoa assim do lado.
Hoje, olhando para trás, eu vejo as coisas andando. De certa forma, elas nunca estão paradas, estáticas. Vejo meu trabalho no Legião Urbana como uma bagagem, um acúmulo de experiências. Essa busca pela realização plena sempre esteve presente.
Marcelo Bonfá, que tocava bateria no trio, diz que sua relação com Renato Russo é espiritual. Hoje mesmo, dez anos depois da morte de Renato, estou lançando o meu terceiro disco-solo em Fortaleza e conheci um pessoal que toca covers de Legião Urbana. Eles são grandes fãs da banda, diz Bonfá. É uma coincidência muito grande, este é um momento muito especial.
MÃE DE RENATO RUSSO FALA SOBRE CANÇÕES DO FILHO
A obra do cantor e compositor Renato Russo continua emocionando uma legião de fãs mesmo 10 anos após sua morte. Para lembrar a data o Bom Dia DF ouviu Maria do Carmo Manfredini, a mãe e a mais especial de todas as fãs do band leader da Legião Urbana, considerada a maior banda de rock já surgida em Brasília e uma das maiores do rock nacional de todos os tempos.
Ela conta como foi que descobriu o artista Renato Russo no filho, o Júnior, como costumava chamá-lo. Diz que que ele mostrava as letras das músicas para ela durante a madrugada, mas que só veio entender muito tempo depois o significado das canções ao lembrar do momento em que foram criadas. Segundo ela, a Legião parecia ''mais uma brincadeira, afinal era mais uma banda'' do filho.
Vídeo:
Há 20 anos, 'Fantástico' apresentou o hit 'Tempo Perdido' :
Críticos, músicos e fãs defendem a atualidade da obra de Russo: http://gmc.globo.com/GMC/1,,2465-p-M555412,00.html


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